Saneamento básico na Índia e os limites da urbanização acelerada

Continentes com grandes populações concentram desafios igualmente amplos, especialmente nas áreas de saúde e saneamento. Na Índia, que reúne mais de 1,4 bilhão de habitantes, a manutenção de condições sanitárias nas cidades segue como um problema persistente. A combinação de infraestrutura insuficiente, escassez de banheiros públicos e falhas na gestão de resíduos compõe um cenário crítico. Impulsionada por uma urbanização acelerada, que avançou além da capacidade de expansão da infraestrutura, a questão se consolidou no ambiente urbano e expõe limites cada vez mais evidentes.

Esse cenário contrasta com experiências anteriores do próprio território. A Civilização do Vale do Indo, ainda na Idade do Bronze, estruturava sistemas sofisticados de abastecimento de água e esgoto, com planejamento urbano em grade, drenagem eficiente e presença de banheiros privativos e espaços coletivos de higiene. Ao longo do período colonial, esse legado foi progressivamente substituído. A partir do século XIX, intervenções inspiradas em modelos europeus reconfiguraram cidades indianas, priorizando novas infraestruturas e desconsiderando práticas locais, em processos também associados a estratégias de controle territorial. 

A partir dessa trajetória, delineia-se o cenário contemporâneo. Fatores históricos, sociais, econômicos e infraestruturais ajudam a compreender as condições atuais. Em centros urbanos marcados por alta densidade populacional, pobreza e cobertura sanitária limitada, a vulnerabilidade à disseminação de doenças se mantém elevada. A concentração populacional acelera a circulação de enfermidades, amplia a produção de resíduos e esgoto e pressiona recursos compartilhados, com impactos diretos nas condições de vida.

É nesse ambiente que o saneamento básico se consolida como eixo central na mitigação de riscos à saúde. Na Índia, seus efeitos atravessam a saúde pública, a sustentabilidade ambiental e a qualidade de vida. Ainda assim, a infraestrutura não acompanha o crescimento populacional. 

Em 2012, dados do censo indiano revelaram que cerca de 46% dos domicílios não possuem banheiros internos e quase metade da população ainda pratica a defecação a céu aberto, enquanto parte significativa dos resíduos permanece sem coleta ou tratamento adequado. 

As desigualdades de renda aprofundam essas limitações, restringindo o acesso a serviços básicos e ampliando situações de precariedade. Observa-se também um contraste entre práticas domésticas de higiene e a ausência de cuidado em espaços públicos. 

Diante dessas condições, políticas públicas recentes têm buscado reverter parte desse cenário. Lançada em 2014, a campanha Swachh Bharat Abhiyan, com orçamento de 10 bilhões de dólares, estruturou ações em escala nacional voltadas à ampliação do acesso a banheiros, ao aprimoramento da gestão de resíduos e à conscientização sobre a relação entre saneamento e saúde. A iniciativa reforça a mudança de comportamento e estratégias localizadas como elementos centrais. 

Os resultados indicam avanços relevantes, com a construção de mais de 100 milhões de banheiros em áreas rurais, cerca de 6 milhões em áreas urbanas e milhões de unidades públicas e comunitárias. O impacto dessas ações contribuiu para que milhares de cidades e centenas de milhares de vilas alcançassem o status de livre de defecação a céu aberto

Foto: Meena Kadr

Foto: Meena Kadr

O futuro

Apesar dos avanços, o cenário permanece desafiador. A distribuição de recursos tende a privilegiar grandes centros urbanos, enquanto outras áreas seguem com menor cobertura, o que reforça a necessidade de abordagens sensíveis às diferenças entre contextos urbanos e rurais.

Em um contexto de urbanização crescente, as cidades assumem papel central na promoção de condições de vida mais saudáveis. A ampliação do saneamento impacta diretamente a saúde, a qualidade ambiental e o desenvolvimento econômico, além de contribuir para a organização do espaço urbano. Nesse processo, iniciativas públicas reforçam a presença do tema na agenda nacional.

A trajetória do saneamento na Índia evidencia a necessidade de articulação entre fatores históricos, sociais, econômicos e ambientais. Enfrentar esse cenário demanda ações integradas, que envolvam infraestrutura, políticas públicas e mudanças de comportamento. Esse percurso dialoga com desafios presentes em países como o Brasil, onde desigualdades territoriais, crescimento urbano acelerado e limitações estruturais também condicionam o acesso ao saneamento, indicando a centralidade do tema na construção de cidades mais justas e sustentáveis.

– Por Carla Oliveira
Head de Comunicação

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