
As cidades são resultado direto das escolhas que fazemos enquanto sociedade. Mais do que sua estrutura física, elas moldam o acesso a oportunidades como moradia, mobilidade, emprego e serviços o que evidencia as desigualdades. Nesse sentido, a pergunta “Para quem as cidades estão sendo projetadas?” não é apenas um exercício teórico, mas um ponto de partida para orientar práticas mais responsáveis no planejamento urbano.
Ao longo da história, o planejamento urbano tem sido orientado por interesses econômicos e funcionais, priorizando a circulação, a infraestrutura e a expansão das cidades. No entanto, esses mesmos elementos frequentemente são mobilizados como instrumentos de valorização fundiária, atendendo a dinâmicas de mercado e à lógica da especulação imobiliária. Nesse processo, a dimensão humana e social do espaço urbano acaba sendo colocada em segundo plano, o que contribui para o aprofundamento das desigualdades socioespaciais.
Nas últimas décadas, entretanto, tem se consolidado uma mudança de padrão. Autores como Jane Jacobs e Jan Gehl, referências no pensamento humanístico na arquitetura, destacam que a importância da valorização da escala humana, da diversidade de usos e da qualificação dos espaços urbanos têm orientado intervenções mais condizentes com dinâmicas reais dos territórios. Essa abordagem reconhece que cidades mais inclusivas e seguras são aquelas que consideram o coletivo.
No Brasil, esse desafio se torna ainda mais complexo. A relação entre áreas formais e assentamentos informais, junto às desigualdades históricas no acesso à infraestrutura e aos serviços urbanos, pede soluções integradas e adequadas às realidades locais. É nesse contexto que a regularização fundiária urbana e a urbanização de assentamentos, respaldadas pelas legislações municipais e federais, assumem um papel estratégico na construção de cidades mais justas.
Diante desse cenário, a atuação técnica precisa ir além do desenho urbano. Envolve escuta qualificada, leitura territorial e articulação entre diferentes agentes, como, por exemplo, poder público, iniciativa privada e comunidade. Mais do que propor soluções formais, trata-se de construir respostas viáveis que conciliem inclusão social, segurança jurídica e sustentabilidade.
Projetar cidades para as pessoas, portanto, implica assumir um compromisso efetivo com o interesse coletivo, não apenas pelo Poder Público, mas por todos os agentes executores das políticas públicas voltadas, em especial, à população de baixa renda.
– Por Mayara Gamba
Arquiteta e Urbanista

A pergunta que orienta esta reflexão expõe uma contradição central das cidades contemporâneas: enquanto o planejamento urbano avança em normas, instrumentos e tecnologias, uma parcela significativa da população ainda vivencia a cidade a partir da precariedade, da informalidade e da exclusão.
No Brasil, esse descompasso resulta de um processo histórico de produção desigual do espaço urbano, no qual o acesso à moradia, à infraestrutura e aos serviços se deu de forma seletiva, consolidando territórios à margem da cidade formal e evidenciando que o planejamento urbano está longe de ser neutro.
No Brasil, esse descompasso resulta de um processo histórico de produção desigual do espaço urbano — marcado pela distribuição desigual de acesso à moradia, à infraestrutura e aos serviços consolidando territórios à margem da cidade formal e evidenciando que o planejamento urbano está longe de ser neutro.
A realidade de São Paulo expressa esse cenário: áreas valorizadas coexistem com territórios vulneráveis, muitas vezes em áreas ambientalmente sensíveis e com acesso precário à infraestrutura. Esse quadro revela os limites de um planejamento centrado em parâmetros técnicos, pouco aderente à complexidade da cidade real e às dinâmicas que estruturam o cotidiano dos territórios.
Na prática das intervenções, essa distância se materializa de forma concreta: projetos concebidos de maneira homogênea encontram territórios dinâmicos, marcados por trajetórias e estratégias próprias, que desafiam soluções padronizadas e exigem leitura territorial qualificada.
Nesse contexto, o urbanismo social se apresenta como uma mudança necessária ao reposicionar o cidadão no centro da transformação urbana. O território deixa de ser apenas suporte físico e passa a ser reconhecido como espaço vivido, resultado das relações sociais, econômicas e culturais.
A infraestrutura, por sua vez, deixa de ser apenas técnica e passa a se afirmar como fator de inclusão ou exclusão. O acesso desigual a saneamento, mobilidade e equipamentos públicos evidencia que a cidade reflete escolhas e são elas que definem quem participa da vida urbana e quem permanece à margem.
Diante disso, a qualificação dos territórios exige abordagens integradas. No âmbito das intervenções urbanas, o Trabalho Social se apresenta como elemento fundamental na mediação entre planejamento e território, incorporando dinâmicas locais e contribuindo para soluções mais aderentes às realidades vividas.
Nesse contexto, essa atuação evidencia a importância de uma leitura territorial integrada, na qual as especificidades do Trabalho Social e do Urbanismo se articulam a partir do território, sem perder suas autonomias, mas orientadas por um objetivo comum: promover inclusão e qualidade de vida.
Em escala mais ampla, essa lógica de articulação se amplia no âmbito das políticas públicas, onde a intersetorialidade não é complementar, mas condição para sua efetividade. A fragmentação limita resultados; a integração amplia a capacidade de resposta frente às diferentes dimensões da vulnerabilidade.
Assim, a resposta se torna clara: as cidades ainda são, em grande medida, projetadas para poucos.
Reverter essa lógica implica reconhecer o território como espaço de vida e orientar o planejamento urbano a partir das necessidades reais da população, promovendo cidades mais inclusivas e com melhor qualidade de vida.
– Cristiane de C. Fernandez Soncin
Arquiteta e Urbanista